sábado, 16 de maio de 2026

O TEATRO DAS INCOERÊNCIAS: CIRO GOMES E O VALE TUDO PELO PODER NO CEARÁ

    Por Eudasio Menezes

   Quem acompanha a política brasileira sabe que a retórica inflamada e o sincericídio sempre foram e são as principais marcas registradas de Ciro Gomes. Nacionalmente, ele se vendeu por décadas como o paladino da centro-esquerda, o intelectual dos dados econômicos e o inimigo número um do que ele chamava de fascismo bolsonarista. No entanto, a proximidade das eleições de 2026 para o Palácio da Abolição revelou uma face de Ciro bem conhecida dos bastidores, e que agora foi escancarada para o eleitor comum: para Ciro Gomes, a ideologia é descartável e os aliados são puramente sazonais. Ao oficializar seu retorno ao PSDB e liderar algumas pesquisas ao governo estadual, Ciro operou uma metamorfose política impressionante. A pergunta que o eleitor cearense precisa se fazer hoje é simples: existe uma preocupação real com o povo do Ceará ou o estado virou apenas um prêmio de consolação para quem foi isolado nacionalmente?

    De fascistas a jovens talentos: a conveniência das alianças é o que importa para Ciro Gomes. Para entender o tamanho da contradição, basta puxar a fita da memória recente. Até pouco tempo, Ciro utilizava os palanques nacionais e suas redes sociais para disparar ataques pesados contra a direita cearense e a família Bolsonaro. Relembre os alvos históricos que hoje dividem o mesmo palanque com o ex-ministro: André Fernandes - PL: até pouco tempo um desafeto, outrora criticado por sua postura extremista na internet e alinhamento cego a Jair Bolsonaro. Recentemente, em um movimento que chocou a militância histórica do PDT e do PSDB, Ciro mudou drasticamente o tom, passando a chamá-lo publicamente de jovem talento da política cearense. Do União Brasil, que hoje alinha-se ao Partido Progressista para formar uma federação, Capitão Wagner Souza: adversário histórico nas disputas pelo governo e pela prefeitura de Fortaleza, Wagner sempre foi pintado por Ciro Gomes como o símbolo de uma política atrasada e ligada aos motins de policiais. Hoje, sob a desculpa de união contra as facções criminosas, Ciro trata o Capitão com cordialidade fraternal, tratamento até melhor do que o dispensado ao irmão Cid Gomes.

    Por fim, a Família Bolsonaro: Jair Bolsonaro e seus filhos - como o senador Flávio Bolsonaro - foram, por anos, os maiores inimigos declarados da retórica cirista, rotulados por ele como destruidores da democracia e da economia do país. Hoje, para viabilizar sua candidatura pelo PSDB e garantir o apoio do Partido Liberal - PL, no Ceará, convenientemente, as críticas nacionais foram engavetadas. E se a aliança com antigos inimigos ideológicos não for suficiente para ligar o alerta do eleitor, o racha na própria casa de Ciro deveria. A obsessão de Ciro Gomes, pelo controle político e pelo poder centralizado foi o estopim para o rompimento histórico com seu irmão, Cid Gomes, implodindo o grupo político que governou o Ceará por quase duas décadas. Ciro sempre criticou o fisiologismo e o apodrecimento do sistema político. Mas qual é a diferença entre a velha política que ele tanto condena e a engenharia que ele faz hoje? Nenhuma. Ao se aliar com o bolsonarismo local para criar uma frente antipetista, Ciro adota exatamente o pragmatismo de conveniência que jurou combater.

    A grande verdade por trás das idas e vindas emocionais e políticas de Ciro Gomes é puramente calculista. Após quatro derrotas presidenciais consecutivas e de colher seu pior resultado histórico em 2022 - saindo isolado e nanico do cenário federal - o candidato percebeu que precisava de um território para sobreviver. Portanto, o recuo para o Ceará não é um ato de amor ou uma súbita preocupação com a saúde ou a segurança do estado. É um antes de tudo, um recuo estratégico de sobrevivência. Ciro precisa da máquina pública estadual para se manter politicamente vivo, reconstruir uma base territorial no Nordeste e tentar, mais uma vez, se projetar nacionalmente para os cenários de 2030.

    Resumindo: a mudança de opinião Ciro Gomes - com a mesma facilidade com que troca de roupa - deixa evidente que o projeto dele nada tem haver com o povo cearense, mas trata-se sim, de um projeto estruturado para ele próprio e os seus novos aliados, antigos desafetos. A aliança com André Fernandes, Capitão Wagner e o bolsonarismo não foi costurada para melhorar a vida do cidadão em Maracanaú ou em qualquer outra cidade do Ceará. Foi feita para somar tempo de televisão, costurar palanques e inflar seu projeto pessoal de poder. Quando a ambição pela cadeira do Palácio da Abolição atropela a coerência, a história e a própria palavra empenhada, o recado é claro: o eleitor é apenas um detalhe estatístico no plano de quem só enxerga o poder.

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