Por Eudasio
Menezes
Quem
conhece a fundo a história da América Latina e do Sul Global entre as décadas
de 1940 e 1970 assiste ao cenário político contemporâneo com uma incômoda e
deprimente sensação de déjà vu. O pragmatismo imperialista
norte-americano, que outrora utilizava a justificativa da "ameaça
vermelha" para destituir governos legítimos e moldar soberanias
regionais, ganhou uma nova e sofisticada roupagem no século XXI. Sob a
liderança de Donald Trump, a máquina de influência e projeção de poder dos
Estados Unidos recalibrou seus alvos e atualizou seus métodos, mas manteve
rigorosamente intacta a sua essência: a busca implacável pela manutenção de sua
hegemonia global, custe o que custar para a autonomia institucional alheia.
Se no século passado o inimigo a ser combatido ferozmente era o socialismo,
hoje a estratégia se refinou em meio a uma nova configuração geopolítica.
Este
fenômeno contemporâneo não ocorre no vácuo; ele caminha lado a lado e
impulsiona um ecossistema global caracterizado pela ascensão fulminante da nova
direita e da extrema-direita. Da Europa às Américas, assiste-se a uma onda de
insatisfação popular canalizada por discursos hipernacionalistas, anti-establishment
- oposição radical às estruturas de poder estabelecidas -,
xenófobos e profundamente conservadores nos costumes. No continente americano,
essa movimentação encontrou solo fértil, espalhando-se de forma coordenada por
diversas nações e redefinindo o equilíbrio de forças regional. Longe de ser um
movimento puramente orgânico, esse crescimento das correntes ultradireitistas
passou a contar com o respaldo tático, a legitimação ideológica e a
interferência, sutil ou explícita, do governo de Donald Trump.
A
estratégia norte-americana abandonou o financiamento exclusivo de juntas
militares ou a promoção de golpes de Estado tradicionais. Em vez disso, o
governo estadunidense passou a interferir nos processos eleitorais e na
sustentação de regimes aliados através do suporte a candidaturas da
ultradireita, integrando-as a uma espécie de internacional conservadora.
Através da exportação da guerra cultural, do uso coordenado de redes digitais
de desinformação e do apoio diplomático ostensivo, Washington encontrou nos
líderes extremistas locais os interlocutores ideais para a reiteração de seus
velhos interesses imperialistas sob um novo disfarce. O objetivo por
trás desse alinhamento com o extremismo conservador global é de uma clareza
solar.
Com
isso, ao impulsionar lideranças ultradireitistas em nações estratégicas do
hemisfério ocidental, a administração Trump visa costurar uma complexa rede de
governos satélites. São aliados que, movidos internamente por uma retórica
nacionalista inflamada e uma soberania de fachada para o consumo de suas bases
eleitorais, ironicamente se curvam com rapidez e submissão aos ditames da Casa
Branca na política externa e na economia. Essa engenharia geopolítica
contemporânea busca garantir três pilares fundamentais para os EUA:
1.
O Domínio de Recursos:
Garantia de acesso facilitado a mercados e commodities estratégicas, sob
condições favoráveis ao capital transnacional;
2.
O Alinhamento
Automático: Apoio cego em fóruns internacionais
(como a ONU e a OEA), resultando no esvaziamento do poder e da autonomia de
blocos de integração regional independentes;
3.
O Isolamento de Rivais
Globais: O bloqueio do avanço comercial,
tecnológico e político de potências concorrentes, como a China e a Rússia, no
chamado "quintal" geopolítico das Américas.
A
grande contradição desse modelo - e que merece a nossa mais profunda e urgente
reflexão - reside na total ausência de compromisso real com os valores
democráticos que os próprios Estados Unidos historicamente juram defender e
exportar. O apoio explícito a figuras que flertam abertamente com o
autoritarismo, que corroem as instituições por dentro e que questionam a lisura
dos sistemas eleitorais revela que, para o império estadunidense, a
democracia é apenas uma palavra de conveniência. Trata-se de um produto
de exportação que se descarta sem qualquer hesitação quando deixa de servir aos
seus negócios ou aos seus alinhamentos ideológicos.
Trata-se,
pois, de uma política externa utilitarista que visa única e exclusivamente os
seus próprios interesses de dominação. Não há preocupação com o desenvolvimento
social, com o combate às desigualdades estruturais ou com a estabilidade
institucional dos países que sofrem com a interferência. O que importa é o
cálculo frio do poder global. E a repetição das ações intervencionistas do
passado, agora potencializada pela polarização digital e pelas táticas de
guerra híbrida, serve como um alerta severo: a soberania popular e a
autodeterminação dos povos transformaram-se em um vidro extremamente frágil
diante das ambições imperiais contemporâneas.
Para blogs e canais de
debate que se propõem a pensar o mundo de forma crítica e independente, como o
nosso espaço, desmascarar essas velhas táticas vestidas com roupagens modernas
não é apenas um exercício de retórica acadêmica: é um dever cívico inalienável
e de resistência. O mundo, e de forma muito categórica as Américas, não podem
mais aceitar a condição de ser o quintal de ninguém, por isso, reflita conosco sobre
esse ciclo repetitivo da política externa americana e o avanço da
extrema-direita em nosso continente sob o influxo de Washington?
Deixe seu comentário
abaixo e participe ativamente deste debate essencial!