Por Eudasio Menezes
Em tempos de imediatismo tecnológico e saturação de telas, o discernimento tornou-se um artigo de luxo inacessível para quem luta pela sobrevivência diária. Para o cidadão comum - que cumpre jornadas extenuantes de seis a sete dias por semana a busca pela verdade histórica transformou-se em um fardo quase insuportável. Enquanto a classe política usufrui de passagens, hotéis e outras regalias financiadas pelo dinheiro público, o trabalhador, invisibilizado e exausto, assiste a uma perversa disputa de narrativas onde o compromisso com o fato foi há muito sepultado.
A política contemporânea se consolidou como uma máquina geradora de histeria e anestesia. De um lado, assiste-se ao espetáculo do quanto pior melhor promovido pelas forças de oposição. Trata-se de uma tática que flerta abertamente com o terrorismo psicológico: maximizam-se as mazelas, ignoram-se sumariamente os acertos e desenha-se um cenário apocalíptico com o único e mesquinho objetivo de canalizar a revolta popular em dividendos eleitorais. É a instrumentalização do medo. Não se busca mais informar ou sequer convencer pela razão, mas sim capturar o estômago e o fígado do eleitor por meio de um pêndulo emocional violento.
Do outro lado da trincheira, a máquina estatal responde com um esforço de propaganda igualmente descolado da realidade material. Trata-se da tentativa de vender um idílio de perfeição, minimizando impactos negativos e promovendo uma tranquilidade artificial. Como o mestre Raul Seixas já cantava em sua profética Abre-te Sésamo, em 1980: "E vamo' nós de novo, vamo na gangorra no meio da zorra desse, desse vai-e-vem". Ficamos assim, presos neste balanço irritante, sem saber se habitamos o fictício Céu de Brigadeiro desenhado pelo governo ou o Inferno de Dante bradado pela oposição.
O estado do Ceará oferece, recentemente, dois estudos de caso emblemáticos de como essa guerra fria de versões deforma a realidade cotidiana. O primeiro episódio diz respeito a uma plantação de maconha apreendida em Acopiara. Políticos da oposição - capitaneados por figuras proeminentes do espectro bolsonarista e nomes tradicionais do debate local - apressaram-se a gravar vídeos alegando que as drogas teriam sido deliberadamente deixadas sem segurança para beneficiar criminosos.
Em contrapartida, o aparato governamental justificou a queima controlada em valas como protocolo padrão de segurança ambiental. O que para um grupo era facilitação ao tráfico, para outro era procedimento técnico padrão. O cidadão, no meio do tiroteio digital, herdou apenas a fumaça da dúvida.
Tem ainda o caso de Uiraponga: Fantasma de quem? O distrito de Uiraponga, a cerca de 210 km da capital cearense, tornou-se palco de outra alegoria bizarra. Aproveitando o silêncio e o vazio da madrugada, parlamentares oposicionistas registraram o local como uma cidade fantasma, alegando que a população teria sido evacuada sob o jugo de facções criminosas. A resposta governista veio no dia seguinte, em tom de festa de interior: vídeos mostrando feiras ativas, comércios abertos e crianças brincando na praça. O contraste absoluto revela que a verdade não é o fim destas peças publicitárias, mas sim a sua primeira vítima.
Diante disso, como deve agir, portanto, aquele que não dispõe de assessoria paga pelo erário público para desbravar o interior do estado checando a veracidade dessas denúncias? A resposta reside em uma revolução individual de postura: a recusa sistemática do consumo passivo. A emancipação do cidadão comum exige que ele desconfie do impacto emocional imediato de qualquer postagem. É preciso cruzar fontes, confrontar o histórico dos interlocutores e, fundamentalmente, ouvir a voz daqueles que de fato habitam o território em disputa. A verdade não está na tela de quem discursa por cliques; ela reside no suor de quem trabalha e resiste à margem do espetáculo.












