Por Eudasio Menezes
As movimentações estruturadas na corrida ao Palácio da Abolição trazem um desenho técnico fascinante - e, para muitos os estrategistas, um tanto desesperador. Os dados divulgados pela pesquisa RealTime BigData (registro CE-05682/2026) revelam que Elmano de Freitas (PT) e Ciro Gomes (PSDB) travam um duelo de titãs fincado no limite do empate técnico na modalidade estimulada (44% a 40%, respectivamente). Contudo, quando destrinchamos a amostragem pelo método da ponderação populacional, a matemática se descolore do verniz político e expõe um favoritismo estrutural desafiador para a oposição.
É nesse contexto árduo que a mais recente peça de propaganda de Ciro Gomes ganha contornos de urgência absoluta. Ao voltar suas baterias de comunicação diretamente para as mulheres - com forte ênfase no medo maximizado pelas constantes explorações da direita bolsonarista que lhe dá sustentáculo - nas questões de segurança pública e no sofrimento de mães cujos filhos viram alvos ou vítimas da violência nas periferias cearenses, está longe de Ciro a intenção de fazer um apelo emocional; na verdade o que ele está tentando fazer sem nenhum remorso, é usar esse medo para furar a represa demográfica que hoje blinda a liderança governista de Elmano de Freitas que detém maioria esmagadora das intenções de votos das mulheres são maioria das população brasileira e claro, também cearenses, conforme demonstro a seguir.
A matemática populacional do Ceará explica o movimento. A amostragem do eleitorado estadual expõe que as mulheres representam 53% das votantes. Nesse exato nicho majoritário, Elmano de Freitas goza de uma vantagem formidável, cravando 50% das intenções de voto feminino contra apenas 36% de Ciro. Multiplicado pelo peso real do eleitorado, o atual governador do PT garante, apenas no segmento feminino, 26,50% de todos os votos do estado, deixando Ciro com 19,08%. A dominância do tucano entre os homens (44% a 38%) ajuda a equilibrar o jogo superficial das pesquisas, mas o teto masculino (47% da população) não é suficiente para anular a vantagem governista no público feminino.
O apelo de Ciro às cearenses tenta morder o calcanhar de Aquiles de Elmano explorando a sensação de insegurança que oprime e angustia mães e trabalhadoras cotidianamente. E isto não se trata de um sentimento de solidariedade a essas mais, mais sim de uma tática de guerrilha eleitoral. Contudo, o ex-ministro enfrenta uma barreira que vai além do gênero: o fator renda.
Se a disparidade entre homens e mulheres já impõe dificuldades à oposição, o desenho socioeconômico do Ceará as aprofunda de forma drástica. O bloco que recebe até 2 salários mínimos abrange esmagadores 69% da população do estado. E é precisamente no coração dessa gigantesca camada popular que reside o reduto intocável do petismo, onde Elmano lidera com 48% contra 35% de Ciro.
As vitórias retumbantes de Ciro nos extratos de classe média e alta - onde o tucano chega a 50% de apoio naqueles que ganham mais de 2 salários mínimos - ecoam forte nas redes sociais e nos centros urbanos mais abastados, mas colidem contra uma dura barreira estatística: somados, esses segmentos representam apenas 31% da população cearense. Ou seja, Ciro ganha onde há menos votos; Elmano consolida a dianteira onde está a imensa maioria do povo.
A análise fria da dinâmica de votabilidade corrobora esse cenário. O núcleo duro de Elmano é resiliente: 27% do eleitorado afirma que votaria nele com certeza", ancorados em um governo aprovado por 58% da população. Ciro Gomes ostenta uma base de convicção de apenas 20%, e isso lhe coloca numa posição de dependência total do voto estratégico e flutuante, isto é, dos 36% que o colocam como uma possibilidade de voto". No entanto, sua rejeição no patamar de 39% indica que o eleitor governista e de baixa renda permanece refratário ao seu estilo duro de embate político.
A última propaganda de Ciro focada nas mulheres é uma tentativa tática em termos de posicionamento, para tentar converter vulnerabilidade social em fadiga eleitoral. Mas, para este comentarista que vos escreve, fica o questionamento analítico central: sua performance no apelo ao sentimento materno e ao clamor pela segurança será potente o suficiente para quebrar a identificação histórica do cearense humilde com o projeto de proteção social do governo estadual de Elmano, alinhado as políticas públicas sociais do governo Lula?
Ciro Gomes tem em mãos a árdua missão matemática. Sua rejeição na base da pirâmide social e sem uma incursão bem-sucedida na base da pirâmide econômica e no público feminino, a liderança de Elmano de Freitas persistirá e permanecerá blindada não por sorte, mas pela inexorável realidade demográfica do Ceará.












