Por Willys Nakamura
Acadêmico de Ciência Política
Minha impressão foi de que parte daquela juventude talvez não estivesse ali necessariamente por conhecimento aprofundado de programas de governo, políticas públicas ou projetos de país. O que parecia mobilizar muitas pessoas era a experiência de fazer parte daquele ambiente, daquela estética e daquele momento. Quase não ouvi referências a educação, saúde, emprego, lazer ou políticas específicas para a juventude. Também não percebi grandes discussões sobre o que deveria ser feito de diferente no país. Havia críticas a partidos e candidatos, palavras de oposição e disposição para a disputa, mas nem sempre acompanhadas da pergunta fundamental: o que exatamente está errado e qual seria a alternativa?
Essa constatação merece atenção, principalmente porque revela como a política contemporânea mudou. Ela já não disputa apenas propostas, ideias e programas. Disputa também sentimentos, imagens, símbolos, linguagens e identidades. Uma concentração política pode assumir elementos de festa, espetáculo e evento social sem deixar de produzir efeitos eleitorais. Para parte dos participantes, estar ali pode significar encontrar amigos, ouvir música, subir numa moto, vestir-se de determinada maneira, fazer vídeos, publicar fotografias e sentir-se integrado a um grupo. Em uma sociedade dominada por redes sociais, imagens rápidas e vídeos curtos, essa experiência de pertencimento pode ser tão importante para a mobilização quanto o conteúdo de um discurso.
Foi então que surgiu uma pergunta incômoda para quem se identifica com a esquerda: onde estamos falhando na comunicação com parte dessa juventude? Será que nos tornamos excessivamente didáticos, formais ou "professorais"? Será que, em alguns momentos, transformamos política numa palestra permanente, acreditando que dados, explicações e argumentos bastam para gerar identificação? A política precisa de conteúdo, evidentemente, mas também precisa de linguagem, emoção e capacidade de aproximação. Uma proposta pública pode ser tecnicamente boa e socialmente relevante, mas, se não for compreendida, sentida ou apropriada pelas pessoas, corre o risco de perder espaço para mensagens muito mais simples e emocionalmente mais fortes.
Talvez esteja aí outra questão importante. A estética de uma juventude aparentemente próspera, livre, bonita, moderna e descolada pode funcionar não apenas como expressão de uma realidade, mas como representação de um mundo ao qual muitas pessoas desejam pertencer. Campanhas políticas também constroem imaginários. Elas não apresentam somente candidatos e propostas; apresentam estilos, símbolos, identidades e imagens de futuro. Nesse sentido, o desejo de ser visto, de participar, de estar presente e de fazer parte de alguma coisa pode ser politicamente muito poderoso. Desprezar esse fenômeno seria um erro. É preciso entendê-lo para compreender por que determinadas mobilizações conseguem atrair jovens mesmo quando o debate programático parece ocupar um espaço secundário.
Voltei para casa sem uma conclusão definitiva, mas com uma convicção: quem pretende compreender a política atual precisa compreender também a comunicação, a estética e o pertencimento. O desafio não é apenas convencer alguém de que determinada proposta é correta, mas fazer essa pessoa sentir que a política também diz respeito à sua vida, aos seus sonhos, às suas frustrações e às suas expectativas. Política e campanha não são exatamente a mesma coisa. A política constrói projetos para a sociedade; a campanha precisa fazer com que a sociedade se reconheça nesses projetos. Talvez uma das maiores tarefas de quem estuda e participa da vida pública hoje seja justamente aprender a aproximar essas duas dimensões.












