quarta-feira, 20 de maio de 2026

O IMPACTO DO ESCÂNDALO FINANCEIRO DO MASTER REFLETE NA CAMPANHA DE FLÁVIO BOLSONARO

Por Eudasio Menezes

A divulgação de duas das principais pesquisas de intenção de voto do país - Genial/Quaest e AtlasIntel/Bloomberg - acendeu o debate estratégico nos bastidores do poder na capital federal. À primeira vista, os números finais sobre a sucessão presidencial de 2026 parecem flutuar em direções opostas: enquanto a Quaest aponta para um cenário de igualdade virtual absoluta em um eventual segundo turno, a AtlasIntel projeta uma liderança isolada e fora da margem de erro para o atual mandatário.

O clima político subiu de tom logo após a consolidação dos dados da AtlasIntel. Diante de um cenário fortemente desfavorável, a defesa do senador Flávio Bolsonaro (PL) acionou a Justiça Eleitoral em uma tentativa de barrar a divulgação do relatório, alegando inconsistências técnicas na coleta de dados digitais e metodologia tendenciosa por conta da inclusão no questionário sobre os áudios vazados, ligando-o - Flávio - ao banqueiro Daniel Vorcaro. A iniciativa jurídica, contudo, pode acabar funcionando nos bastidores como um termômetro do impacto negativo que o escândalo financeiro do Banco Master trouxe para o núcleo da campanha de oposição.

Uma análise técnica e detalhada dos relatórios mostra que os institutos não se contradizem. Na verdade, eles capturaram momentos políticos distintos por meio de metodologias estruturalmente diferentes, oferecendo uma leitura precisa sobre a volatilidade e as clivagens do eleitorado brasileiro. A principal chave para entender a diferença nos resultados, reside na coleta dos dados. A pesquisa Genial/Quaest (realizada entre 8 e 11 de maio) utilizou o modelo tradicional de entrevistas presenciais domiciliares, ouvindo 2.004 eleitores, com margem de erro de dois pontos percentuais.

A AtlasIntel/Bloomberg por sua vez entrou em campo entre 13 e 18 de maio e apostou no recrutamento digital aleatório, o chamado Random Digital Recruitment - RDR. O instituto ouviu uma amostra significativamente maior - 5.032 respondentes - com margem de erro de apenas um ponto percentual. Especialistas apontam que o método digital elimina o impacto psicológico da interação humana. Sob estrito anonimato na internet, o eleitor tende a responder sem o receio de causar impressões negativas ao entrevistador ou a terceiros.

Apesar das disparidades de formato, os dois institutos registraram uma sólida convergência na avaliação da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva: o país segue rigidamente dividido, com a desaprovação oscilando ligeiramente à frente. Na Quaest, o governo registrou melhora influenciada pelo eleitor de centro, fechando com 46% de aprovação e 49% de desaprovação. Na AtlasIntel, o desempenho seguiu a mesma linha de estabilidade polarizada, com registro 47,4% de aprovação e 51,3% de desaprovação.

Os cruzamentos demográficos da AtlasIntel detalham as linhas de fratura que moldam a opinião pública: Na Religião Lula mantém sustentação entre os católicos com 52,7% de aprovação contra 47,1% de desaprovação, mas enfrenta forte resistência entre os evangélicos, onde a desaprovação chega a 74,8%. Quando são medidas as Regiões, o Nordeste surge como o único reduto onde a gestão petista mantém-se majoritariamente favorável com 54,8% de aprovação. Em contrapartida, o Sul lidera o índice de rejeição ao Planalto, registrando 62,5% de desaprovação.

A grande divergência jornalística ocorre nas simulações de segundo turno entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro. A Quaest indicou um empate técnico rigoroso, com o atual presidente registrando 42% contra 41% do senador. Dias depois, a AtlasIntel registrou um rompimento desse empate, apontando Lula com 48,9% e Flávio Bolsonaro com 41,8% - uma vantagem real de 7,1 pontos percentuais para o petista. A explicação para o descolamento é estritamente cronológica. Ao entrar em campo na segunda metade do mês, a AtlasIntel capturou de forma integral o impacto do vazamento de conversas entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O relatório da AtlasIntel, que o senador tentou impugnar judicialmente, expôs o tamanho do desgaste reputacional sofrido pelo senador: a pesquisa identificou que um índice histórico de 95,6% dos brasileiros tomou conhecimento do vazamento dos áudios. E mais, na percepção de 51,7% dos entrevistados, as mensagens de áudio trazem evidências claras do envolvimento direto de Flávio Bolsonaro em irregularidades. Além disso, 43,3% dos pesquisados associam o esquema de fraudes financeiras principalmente aos aliados de Bolsonaro. E tem mais, nada menos do que 64,1% dos eleitores avaliaram que o episódio enfraqueceu a pré-candidatura do senador, sendo que destes, 45,1% afirmaram que o enfraqueceu muito.

Como consequência direta do escândalo, Flávio Bolsonaro passou a ostentar a maior rejeição entre os líderes políticos testados, atingindo 52% - superando numericamente o próprio presidente Lula, que pontuou 50,6%. Se por um lado o cenário com o nome da família Bolsonaro sofreu desgaste conjuntural, as simulações de primeiro turno sem a presença do clã revelam a força estrutural do voto antipetista e de direita no país.

É o que fica demonstrado no Cenário 2 da AtlasIntel, onde Flávio Bolsonaro é retirado da cédula, Lula mantém seus 46,7%, mas o eleitorado conservador rapidamente se aglutina em torno de alternativas como o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, que aparece com 17% das intenções de voto, seguido de perto pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado, com 13,8%. No cenário de simulação de segundo turno sem Lula, o atual ministro Fernando Haddad (PT) aparece com 46,7% contra 43% de Flávio Bolsonaro, mostrando que a paridade de forças persiste mesmo com novos atores.

Os dados consolidados de maio de 2026 mostram que o Brasil inicia o período pré-eleitoral com duas forças profundamente enraizadas. Se a pesquisa Genial/Quaest evidenciou a resiliência estrutural da oposição e o peso do eleitorado independente em períodos de calmaria, o levantamento AtlasIntel/Bloomberg serviu de alerta sobre a velocidade com que as denúncias e fatos novos podem remodelar as franjas volúveis do eleitorado conectado. A investida jurídica de Flávio Bolsonaro para tentar barrar os números reflete a percepção do comitê oposicionista de que os escândalos recentes criaram um teto incômodo para o crescimento da sua candidatura. Com os principais candidatos operando perto do limite de suas rejeições, o destino de 2026 segue atrelado à estabilidade econômica do governo e à capacidade de sobrevivência política da oposição frente às investigações.

O MITO DO DÉFICIT: ONDE REALMENTE ESCORRE O DINHEIRO DA PREVIDÊNCIA

Por Eudasio Menezes

    Há décadas, um fantasma assombra o trabalhador brasileiro: o déficit da Previdência. Políticos de diversos matizes e grandes empresários sobem aos púlpitos para entoar o mesmo mantra: o sistema é insustentável, os segurados vivem demais e é preciso reformar para não quebrar. No entanto, uma análise mais profunda dos fatos revela que o buraco nas contas não é cavado por quem contribui, mas sim por quem sonega, por quem desvia e por quem se beneficia de privilégios encastelados no Poder.

    O discurso do déficit e da insustentabilidade, é a ferramenta perfeita para sucessivas reformas que, invariavelmente, retiram direitos de quem passou a vida laboral sob o sol. O objetivo prometido é sempre a dignidade na velhice, mas o resultado prático é o aumento do tempo de contribuição e a redução do valor real dos benefícios.

    O que não se diz nas coletivas de imprensa é que, enquanto o trabalhador comum luta pelo mínimo, os altos escalões dos Poderes Judiciário, Executivo e Legislativo operam em uma realidade paralela. Através de manobras jurídicas e administrativas, jeitinhos são criados para burlar o teto constitucional. Milhões de reais são distribuídos sob o rótulo de verbas indenizatórias, que, por não serem tecnicamente salários, escapam dos limites legais e da tributação, criando uma casta de privilegiados imune aos sacrifícios impostos ao resto do povo brasileiro.

    A história da Previdência no Brasil é manchada por esquemas de corrupção que drenam bilhões. O caso de Jorgina de Freitas, na década de 90, é o marco zero dessa infâmia. Como procuradora do INSS, Jorgina liderou uma organização criminosa que forjou indenizações milionárias, gerando um prejuízo que, em valores atualizados, segundo a Advocacia Geral da União, chega a cifra de dois bilhões de reais.

    Mas a corrupção não é um fóssil do passado; ela se modernizou. Se reinventou e recentemente, o Brasil acompanhou os trabalhos de uma CPMI que se debruçou sobre a indústria dos descontos associativos ilegais. Embora o relatório tenha sido rejeitado por conveniência política ou culpa no cartório da maioria dos parlamentares, o documento com mais de 4.000 páginas, detalhou como associações de fachada com auxílio de dentro invadiram o sistema para sangrar benefícios de idosos através de mensalidades não autorizadas. Os dados ali contidos são provas irrefutáveis de que o sistema é vulnerável a piratas de colarinho branco.

    Entretanto, apesar de grave e penalmente passível de punição severa dos culpados, talvez a maior omissão no debate sobre o déficit previdenciário, não seja os descontos não autorizados, mas a sonegação estrutural praticada por grandes empresas públicas e privadas, enquanto o poder público fica inerte e silente ante aos bilhões de reais deixam de ser recolhidos para o sistema previdenciário.

   São esses devedores contumazes que, protegidos por sucessivos e benevolentes refinanciamentos, favorecidos por uma fiscalização ineficaz e quizar, até comprometida, com esses caloteiros, utilizam o dinheiro que deveria garantir a previdência social dos trabalhadores - que contribuem a vida inteira, - para inflar seus próprios lucros e engordar suas contas bancárias pessoais.

Conforme podemos perceber, se a conta, não fecha, não é por causa dos aposentados, mais sim por outros motivos: a Corrupção Sistêmica que contabiliza desvios bilionários que enriquecem quadrilhas; a Sonegação das grandes corporações que não recolhem os bilhões referentes a cota patronal e os Privilégios que de forma imoral e ilegal, permitem o pagamento de bilhões de reais em verbas indenizatórias, ignorando por completo o teto estabelecido para o funcionalismo público, na Constituição Federal.

    Diante de tudo o que vimos até aqui, acusar o aposentado pelo déficit da Previdência não é apenas um erro técnico; é uma desonestidade intelectual ou falta de caráter, maior do que o próprio rombo causado por eles. Enquanto o foco das reformas for apenas o corte de direitos na ponta final, e não o combate severo à corrupção, à sonegação e aos privilégios do topo da pirâmide, continuaremos assistindo ao teatro da austeridade seletiva. O déficit existe sim, mas ele é, antes de tudo, um déficit de ética e de justiça distributiva.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A MÁXIMA DE SUN TZU E A FALÁCIA DE FLÁVIO BOLSONARO: QUANDO O ATAQUE NÃO JUSTIFICA O ERRO


Por Eudasio Menezes

    Muitos atribuem a grandes estrategistas e guerreiros da história - como o general chinês Sun Tzu ou o imperador francês Napoleão Bonaparte - a célebre máxima: “A melhor defesa é um bom ataque"Ao longo dos séculos, essa premissa serviu para nortear batalhas campais e definir o destino de impérios.

    Recentemente, contudo, a frase ganhou contornos bem menos heróicos no cenário político brasileiro, servindo de escudo para o senador Flávio Bolsonaro tentar se esquivar do escândalo envolvendo áudios que mencionam cifras de R$ 134 milhões e o banqueiro Daniel Vorcaro. O problema central dessa estratégia reside em um erro crasso de contextualização: a confusão entre geopolítica militar e moralidade pública. Ou seja, quando confundem o território da guerra - bélica - com a ética e a moralidade pública. No campo dos combates físicos, na defesa de posições estratégicas ou na proteção de fronteiras, a lógica exige antecipação aos movimentos do adversário.

    Neste caso, faz sentido atacar primeiro para evitar a invasão, para não ser pego desprevenido e para garantir a manutenção de nosso território. Nesta dinâmica de sobrevivência o inimigo está claramente definido. Contudo, quando transpomos essa máxima para o universo jurídico e político - especialmente em casos que envolvem suspeitas de corrupção - a engrenagem quebra. No tribunal da opinião pública e da Justiça, a estratégia de atacar quem denunciou ou focar todas as energias em descredibilizar o adversário político tem um efeito colateral devastador: ela não prova a inocência de ninguém, isso apenas aponta o dedo para o outro, como quem diz: ele também roubou. 

    E é exatamente isso que acontece quando uma figura pública opta pelo contra-ataque ao invés de mostrar que não tem culpa, apresentando provas e explicações transparentes sobre os fatos que lhe são imputados. Quem tenta subestimar a inteligência do cidadão, ignorando as acusações e partindo para o ataque ao oponente nesses cenários, acaba soando como uma confissão velada, operando sob a lógica perversa de que “se o outro lado também tem falhas, as minhas deixam de existir”. No fundo, essa postura transmite a mensagem de que “se roubei foi porque ele também roubou”.

    Acontece que o erro do outro não anula o próprio erro. O desvio alheio não serve de salvo-conduto para a impunidade. O uso distorcido da máxima de Sun Tzu na política atual não passa de uma cortina de fumaça. Atacar o adversário para desviar o foco de áudios e transações suspeitas não limpa a biografia de ninguém; apenas reforça a percepção de que, no fim das contas, trata-se apenas de mais um envolvido no mesmo lamaçal. Para quem deve explicações ao país, a melhor defesa ainda deveria ser a verdade. O resto é apenas retórica de combate para tentar esconder o indefensável.

    O que você achou dessa análise? Deixe seu comentário abaixo e participe do debate.

sábado, 16 de maio de 2026

O TEATRO DAS INCOERÊNCIAS: CIRO GOMES E O VALE TUDO PELO PODER NO CEARÁ

    Por Eudasio Menezes

   Quem acompanha a política brasileira sabe que a retórica inflamada e o sincericídio sempre foram e são as principais marcas registradas de Ciro Gomes. Nacionalmente, ele se vendeu por décadas como o paladino da centro-esquerda, o intelectual dos dados econômicos e o inimigo número um do que ele chamava de fascismo bolsonarista. No entanto, a proximidade das eleições de 2026 para o Palácio da Abolição revelou uma face de Ciro bem conhecida dos bastidores, e que agora foi escancarada para o eleitor comum: para Ciro Gomes, a ideologia é descartável e os aliados são puramente sazonais. Ao oficializar seu retorno ao PSDB e liderar algumas pesquisas ao governo estadual, Ciro operou uma metamorfose política impressionante. A pergunta que o eleitor cearense precisa se fazer hoje é simples: existe uma preocupação real com o povo do Ceará ou o estado virou apenas um prêmio de consolação para quem foi isolado nacionalmente?

    De fascistas a jovens talentos: a conveniência das alianças é o que importa para Ciro Gomes. Para entender o tamanho da contradição, basta puxar a fita da memória recente. Até pouco tempo, Ciro utilizava os palanques nacionais e suas redes sociais para disparar ataques pesados contra a direita cearense e a família Bolsonaro. Relembre os alvos históricos que hoje dividem o mesmo palanque com o ex-ministro: André Fernandes - PL: até pouco tempo um desafeto, outrora criticado por sua postura extremista na internet e alinhamento cego a Jair Bolsonaro. Recentemente, em um movimento que chocou a militância histórica do PDT e do PSDB, Ciro mudou drasticamente o tom, passando a chamá-lo publicamente de jovem talento da política cearense. Do União Brasil, que hoje alinha-se ao Partido Progressista para formar uma federação, Capitão Wagner Souza: adversário histórico nas disputas pelo governo e pela prefeitura de Fortaleza, Wagner sempre foi pintado por Ciro Gomes como o símbolo de uma política atrasada e ligada aos motins de policiais. Hoje, sob a desculpa de união contra as facções criminosas, Ciro trata o Capitão com cordialidade fraternal, tratamento até melhor do que o dispensado ao irmão Cid Gomes.

    Por fim, a Família Bolsonaro: Jair Bolsonaro e seus filhos - como o senador Flávio Bolsonaro - foram, por anos, os maiores inimigos declarados da retórica cirista, rotulados por ele como destruidores da democracia e da economia do país. Hoje, para viabilizar sua candidatura pelo PSDB e garantir o apoio do Partido Liberal - PL, no Ceará, convenientemente, as críticas nacionais foram engavetadas. E se a aliança com antigos inimigos ideológicos não for suficiente para ligar o alerta do eleitor, o racha na própria casa de Ciro deveria. A obsessão de Ciro Gomes, pelo controle político e pelo poder centralizado foi o estopim para o rompimento histórico com seu irmão, Cid Gomes, implodindo o grupo político que governou o Ceará por quase duas décadas. Ciro sempre criticou o fisiologismo e o apodrecimento do sistema político. Mas qual é a diferença entre a velha política que ele tanto condena e a engenharia que ele faz hoje? Nenhuma. Ao se aliar com o bolsonarismo local para criar uma frente antipetista, Ciro adota exatamente o pragmatismo de conveniência que jurou combater.

    A grande verdade por trás das idas e vindas emocionais e políticas de Ciro Gomes é puramente calculista. Após quatro derrotas presidenciais consecutivas e de colher seu pior resultado histórico em 2022 - saindo isolado e nanico do cenário federal - o candidato percebeu que precisava de um território para sobreviver. Portanto, o recuo para o Ceará não é um ato de amor ou uma súbita preocupação com a saúde ou a segurança do estado. É um antes de tudo, um recuo estratégico de sobrevivência. Ciro precisa da máquina pública estadual para se manter politicamente vivo, reconstruir uma base territorial no Nordeste e tentar, mais uma vez, se projetar nacionalmente para os cenários de 2030.

    Resumindo: a mudança de opinião Ciro Gomes - com a mesma facilidade com que troca de roupa - deixa evidente que o projeto dele nada tem haver com o povo cearense, mas trata-se sim, de um projeto estruturado para ele próprio e os seus novos aliados, antigos desafetos. A aliança com André Fernandes, Capitão Wagner e o bolsonarismo não foi costurada para melhorar a vida do cidadão em Maracanaú ou em qualquer outra cidade do Ceará. Foi feita para somar tempo de televisão, costurar palanques e inflar seu projeto pessoal de poder. Quando a ambição pela cadeira do Palácio da Abolição atropela a coerência, a história e a própria palavra empenhada, o recado é claro: o eleitor é apenas um detalhe estatístico no plano de quem só enxerga o poder.

    O que você acha dessa nova configuração política no Ceará? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe este artigo nas suas redes sociais!

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O FILME SOBRE BOLSONARO PODE VIRAR A NOVELA DE FLÁVIO


 Por Eudasio Menezes

O uso da narrativa como ferramenta de defesa política é uma estratégia comum, mas, quando executada sob a pressão do imediatismo, pode se tornar uma armadilha para o próprio autor. No cenário da comunicação digital, onde cada palavra é escrutinada e confrontada com registros pretéritos, a pressa em estancar a sangria de uma denúncia frequentemente resulta em contradições que alimentam ainda mais a crise original. Um caso emblemático dessa dinâmica pode ser observado na recente resposta do senador Flávio Bolsonaro às revelações do portal Intercept Brasil.

A denúncia aponta que o parlamentar teria solicitado R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um projeto cinematográfico em homenagem ao seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao tentar desconstruir a acusação, a nota oficial do senador acabou por expor vulnerabilidades lógicas e factuais. A fragilidade do desconhecimento aponta para o primeiro ponto de ruptura. A narrativa da defesa reside na natureza do relacionamento entre o senador e o banqueiro. Em sua nota, Flávio Bolsonaro afirmou ter conhecido Vorcaro apenas em dezembro de 2024. No entanto, o registro de áudios enviados via WhatsApp pelo próprio senador para o banqueiro, contradiz frontalmente essa linha do tempo.

Nas mensagens enviadas na véspera da prisão de Vorcaro, o senador demonstra não apenas familiaridade, mas um conhecimento detalhado da situação de crise vivida pelo interlocutor: “... e você também, eu sei que você está passando por um momento dificílimo aí também nessa confusão toda, você sem saber exatamente como é que vai caminhar isso tudo...”. O tom da mensagem revela uma proximidade que vai além de um conhecimento superficial ou recente. A afirmação eu sei que você está passando por um momento dificílimo indica que o senador acompanhava o desenrolar dos problemas enfrentados por Vorcaro, o que esvazia o argumento de um distanciamento protocolar ou de um encontro fortuito no final de 2024.

O Equívoco sobre a natureza da corrupção. Este é o segundo ponto crítico do esclarecimento que toca na definição jurídica e ética de atos ilícitos. O senador argumentou que, por se tratar de um filho pedindo financiamento privado para um filme privado em homenagem a um ex-presidente (atualmente condenado e preso), não haveria irregularidade, uma vez que não envolveria dinheiro público. Esta linha de defesa ignora - ou omite deliberadamente - que a corrupção e o tráfico de influência não são exclusivos do manejo de verbas do Tesouro. O ordenamento jurídico e as boas práticas de governança reconhecem que a posição de poder de um agente público - como um senador da República - não pode ser utilizada para obter vantagens privadas, mesmo que o capital em questão venha de fontes particulares. A promessa de facilitação, o acesso privilegiado ou o uso do peso do cargo para viabilizar negócios privados configura, em tese, desvio de finalidade.

Neste diapasão a conclusão lógica a que se pode chegar de acordo com a ética da comunicação pública, é que este episódio serve como uma lição sobre a gestão de crises na era da informação. Tentar construir uma verdade de conveniência para combater fatos documentados é um exercício de alto risco. Para o cidadão e para o analista político, as contradições nas explicações do senador não são apenas falhas de redação, mas sim indícios de que a narrativa foi montada para ocultar, e não para esclarecer. No tribunal da opinião pública e nas instâncias judiciais, a coerência é o ativo mais valioso. Quando ela é sacrificada no altar da pressa, a defesa acaba por se transformar em uma confissão involuntária de irregularidade.

terça-feira, 12 de maio de 2026

DEMOCRACIA EM TENSÃO: POLARIZAÇÃO, ANISTIA E DESCONFIANÇA INSTITUCIONAL NO BRASIL


Por Eudasio Menezes

Os dados da pesquisa Futura/Apex trazem um sério alerta às principais instituições da República. Em um cenário onde a desaprovação supera a aprovação em todos os pilares do poder, o Brasil parece caminhar para um ciclo eleitoral marcado pela insatisfação e por feridas históricas que insistem em não fechar. A Crise de Popularidade dos Poderes, denotam a fotografia atual do sentimento público, mostrando que nenhum dos três poderes goza de uma maioria de apoio popular.

Os dados da pesquisa Futura/Apex trazem um sério alerta às principais instituições da República. Em um cenário onde a desaprovação supera a aprovação em todos os pilares do poder, o Brasil parece caminhar para um ciclo eleitoral marcado pela insatisfação e por feridas históricas que insistem em não fechar. A Crise de Popularidade dos Poderes, denotam a fotografia atual do sentimento público, mostrando que nenhum dos três poderes goza de uma maioria de apoio popular.

Este artigo tem por escopo analisar os resultados da pesquisa de avaliação política realizada pela Futura em parceria com a Apex, coletada entre os dias 04 e 08 de maio de 2026 e cujos dados revelam um cenário de profunda fragmentação institucional e uma polarização que transcende a disputa eleitoral, manifestando-se com vigor no debate sobre a anistia e a memória histórica, que colocam o País diante de um gigantesco abismo institucional, com o fantasma da anistia, rondando, assombrando e colocando os brasileiros em uma encruzilhada histórica.

Os dados da pesquisa Futura/Apex trazem um sério alerta às principais instituições da República. Em um cenário onde a desaprovação supera a aprovação em todos os pilares do poder, o Brasil parece caminhar para um ciclo eleitoral marcado pela insatisfação e por feridas históricas que insistem em não fechar. A Crise de Popularidade dos Poderes, denotam a fotografia atual do sentimento público, mostrando que nenhum dos três poderes goza de uma maioria de apoio popular.

Na Presidência da República o governo enfrenta uma desaprovação de 51,8%, enquanto 44,9% dos eleitores aprovam a gestão. A avaliação qualitativa reforça o desafio: 45,7% dos entrevistados classificam a administração como Ruim ou Péssima. No Supremo Tribunal Federal (STF), os números são ainda críticos, com 54,3% de desaprovação frente a uma aprovação de 33,9%. Esse descontentamento reflete na cobrança de medidas drásticas, com 57,0% dos brasileiros declarando-se a favor do impeachment de ministros da Corte Constitucional Brasileira.

No Poder Legislativo, o Congresso Nacional é a instituição da República com a maior rejeição, por parte dos brasileiros enfrentando 60,1% de desaprovação e apenas 26,1% de apoio. Contudo, um dado relevante para o futuro do Senado segundo a pesquisa, é a falta de foco do eleitor. Apenas 46,1% dos entrevistados têm consciência de que este ano votarão também para senadores.

Desde os atos do 08 de janeiro, que o ponto central e mais agudo da divisão nacional reside na discussão sobre a anistia. Este tema não é apenas jurídico; ele traz ao cerne dos debates fantasmas do passado brasileiro. E a atual divisão da população mostra isso, quando 37,0% dos entrevistados são rigidamente contra qualquer tipo de perdão, enquanto 31,5% defendem uma anistia ampla geral e irrestrita.

Os que são contra a anistia, fazem um paralelo com 1964 para fundamentar seu ponto de vista, levando o debate atual a ecoa na Lei de Anistia de 1979, que encerrou punições do regime militar. Naquela época, o esquecimento foi vendido como pacificação, mas a falta de responsabilização deixou lacunas na democracia. A discussão sobre a anistia atual, ganha contornos dramáticos diante de relatórios da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP).

Enquanto o país debate o perdão para atos recentes do 08 de janeiro de 2023 - cujos manifestantes depredaram as sedes dos Três Poderes, pedindo intervenção das forças armadas brasileira para inviabilizar a posse de um governo democraticamente eleito - o Estado ainda lida com a busca por justiça para as vítimas da ditadura militar de 1964. A resistência de uma parcela significativa da sociedade em punir ataques às instituições - 31,5% a favor da anistia - sugere que a cultura de impunidade estabelecida no pós-1964 ainda influencia a percepção democrática atual.

A pesquisa confirma ainda que os brasileiros sentem o peso dessa polarização, com 33,5% afirmando que o país está dividido e que estão cansados disso. No entanto, a polarização política ainda permanece forte, com 28,3% declarando-se ao lado do presidente Lula e 23,7% ao lado do ex-presidente Bolsonaro. E isso reflete também não apenas no campo das intenções de voto, mas também na rejeição aos candidatos apresentados. O atual presidente lidera o índice de rejeição com 47,4%, seguido por Flávio Bolsonaro com 43,8%.

No cenário espontâneo, segundo a pesquisa, a disputa permanece concentrada com a polarização entre os dois grupos com o atual mandatário Lula da Silva com 34,9% e o filho do ex-presidente, senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato ao Palácio do Planalto com 27,8% das intenções de votos. Esses dados desenham um Brasil exausto da divisão, mas ainda profundamente ancorado nela. A desconfiança nas instituições - do STF ao Executivo - aliada ao debate passional sobre a anistia, sugere que 2026 não será apenas sobre propostas de governo, mas sobre como o Brasil escolhe lidar com sua memória política e a manutenção de sua democracia.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

A MIRAGEM DA ALTERNÂNCIA: ONDE MAQUIAVEL EXPLICA A DEMOCRACIA MODERNA


 Por: Eudasio Menezes

Ao folearmos as páginas de O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, nosso primeiro impulso do leitor contemporâneo é tratar a obra como um artefato histórico, um manual para tiranos de uma era de espadas e castelos. Contudo, logo de início ao mergulharmos nas entrelinhas de sua dedicatória a Lourenço de Médici notamos em suas observações sobre a estabilidade dos estados, somos confrontados com uma verdade incômoda: Maquiavel nunca foi tão atual. Sua obra inicia com uma lição de humildade estratégica. Notamos isso quando o autor afirma que para conhecer bem a natureza do povo é preciso ser príncipe e para conhecer bem a natureza do príncipe é preciso pertencer ao povo. Aqui, ele não está apenas bajulando seu destinatário. Ele está apresentando um currículo implícito.

Neste ponto o autor nos brinda com a lição de que o poder cria pontos cegos. E estando o governante, no topo da montanha, vê as massas, mas não enxerga a si mesmo, nem a base que lhe sustenta. Claro que esta é a visão de quem olha debaixo, ou seja, o olhar do povo, - e é exatamente neste ponto que Maquiavel se coloca para Lourenço como um especialista que vem do povo - estando, portanto, capacitado e para traduzir para o Príncipe a real mecânica do poder. Outro ponto provocativo do debate maquiavélico reside na ideia de que a continuidade do domínio - permanência no poder - apaga a memória da mudança. Para o pensador florentino, uma mudança sempre abre caminho para outras. Por isso, a estabilidade, ou seja, deixar ficar como está é a maior fortaleza de um governante.

Em nossa democracia moderna, essa lógica opera de forma silenciosa, mas implacável. Embora vivamos sob a égide do voto popular, a realidade nos mostra que a alternância de poder muitas vezes não passa de uma utopia e que vemos na prática em pleno século XXI, é a aplicação da lógica dos principados hereditários dos tempos de Maquiavel: são famílias, grupos e oligarquias que utilizam o poder político, econômico e o controle da máquina pública, para impedir que a engrenagem da mudança comece a girar. Podemos e devemos acreditar claro, que a educação política pelo menos em tese, seria o antídoto para essa estagnação. Pois um povo consciente busca ou deveria buscar a renovação. No entanto, uma análise realista nos obriga a encarar o desequilíbrio de forças.

O poder econômico não apenas financia campanhas; ele molda narrativas, define o que é discutido e, por vezes - não raramente - anestesia o desejo de mudança através da dependência ou da propaganda. Neste contexto, onde Platão e Aristóteles vislumbravam a política como a busca pela virtude e pelo bem comum, a prática moderna parece ter dado razão a Maquiavel, isto é, a política tornou-se a técnica de manutenção de elites.

Deste modo, pelo menos, a curto e médio prazo, o horizonte da alternância real parece distante, haja vista a eficiência do sistema em se auto preservar, transformando o desejo de renovação em uma peça de ficção eleitoral. - Ou como disse o Capitão Nascimento interpretado por Wagner Moura, na obra de ficção realista Tropa de Elite 2 em 2010, na sua icônica frase: “...O sistema é foda, parceiro. Entra político, sai político, continua tudo na mesma, nada muda. Ainda vai levar muito tempo para consertar essa porra, e muita gente inocente vai morrer no meio do caminho...".

Por isso caros leitores, reconhecer essa verdade efetiva das coisas, como propunha Maquiavel, não é necessariamente um ato de pessimismo, mas de lucidez. Somente ao entender que a democracia muitas vezes opera sob a lógica fria do poder econômico é que podemos, talvez, começar a pensar em formas reais de romper esse ciclo. Por enquanto, seguimos sob a égide dos príncipes modernos, onde mudar o nome de quem governa raramente significa mudar a lógica de quem manda, de quem controla o Poder.

O IMPACTO DO ESCÂNDALO FINANCEIRO DO MASTER REFLETE NA CAMPANHA DE FLÁVIO BOLSONARO

Por Eudasio Menezes A divulgação de duas das principais pesquisas de intenção de voto do país - Genial/Quaest e AtlasIntel/Bloomberg - ace...