OPORTUNISMO POLÍTICO SOBRE AS CINZAS DE ACOPIARA E O VELHO TEATRO DAS PROMESSAS ELEITORAIS
Por Eudasio Menezes
Publicado em 02 de julho de 2026
A recente descoberta de uma monumental fazenda com 290 mil pés de maconha no município de Acopiara, na região Centro-Sul do estado, traz à tona muito mais do que os números impressionantes de uma mega-operação policial. O episódio expôs, de forma nua e crua, as entranhas da nossa segurança pública e, principalmente, o pragmatismo rasteiro que move o tabuleiro político cearense. O que deveria ser tratado como um problema de estado gravíssimo, que aflige a rotina e a paz de toda a população, rapidamente virou munição em um palanque antecipado.
Não há como negar: as investigações da Secretaria da Segurança e da Controladoria Geral de Disciplina (CGD) para apurar uma suposta falha grave ou negligência nos procedimentos de custódia e preservação do local do crime são legítimas e urgentes. Deixar toneladas de entorpecentes e acampamentos de criminosos expostos, sem a devida vigilância, é um erro crasso que exige punição rigorosa. Contudo, o que se viu na sequência foi o início de um teatro previsível.
A oposição, liderada por nomes como André Fernandes, Ciro Gomes e Capitão Wagner, apressou-se em capitalizar politicamente o episódio. Em vez de uma postura de cooperação institucional ou de cobrança equilibrada nos canais competentes, o que assistimos foi uma corrida pelas melhores imagens e pelos discursos mais inflamados nas redes sociais. Uma situação séria - que envolve o avanço de facções organizadas como o PCC no interior do estado - foi reduzida a um mero palco de disputa eleitoreira.
O cidadão cearense, que lida diariamente com o medo e a violência, conhece bem essa dinâmica. Fora do período de campanha, o que predomina é um silêncio ensurdecedor dos corredores do poder. Problemas estruturais na polícia, a falta de contingente e o avanço silencioso do crime no interior raramente ganham a devida atenção ou o empenho real de reformas profundas por parte de quem faz as leis ou de quem as executa. Se é por medo ou conivência apenas uma investigação séria - que não acontecerá por comprometimento de muitos - poderia responder a essa questão.
Mas basta o calendário se aproximar do período das convenções e das disputas nas urnas para que o barulho se torne ensurdecedor. De repente, surgem salvadores da pátria de todos os lados. Os palanques se enchem de diagnósticos perfeitos, acusações mútuas e promessas mirabolantes. A grande e amarga ironia é que, quando os holofotes se apagam e as eleições passam, a poeira baixa e a realidade continua exatamente a mesma. Muito barulho é feito, mas ninguém resolve coisa alguma de forma definitiva.
O debate sobre quem teria dado uma suposta contra-ordem para paralisar a destruição imediata da plantação com maquinário pesado serve perfeitamente a esse jogo de empurra. Enquanto a oposição tenta esticar a corda para desgastar a imagem da cúpula da Polícia Civil e do Delegado-Geral Márcio Gutierrez, o governador Elmano de Freitas (PT) precisou agir rápido para estancar a sangria política. Ao ir pessoalmente a Acopiara e ordenar que a polícia permaneça acampada na área até a incineração total, o chefe do Executivo tentou demonstrar autoridade e frear o uso eleitoreiro da crise. O envolvimento indireto das terras da família da ex-vereadora Luiza Rufino (MDB) - que, segundo as investigações preliminares, haviam sido arrendadas de boa-fé para terceiros - apenas acrescenta uma camada de drama local a um enredo que já virou estadual.
Menos palanque, mais ação: A segurança pública do Ceará não pode continuar sendo tratada como um joguete de conveniência política. O avanço do tráfico de drogas exige inteligência, investimentos contínuos e o fortalecimento das instituições, longe do oportunismo das redes sociais e das conveniências partidárias. Enquanto a população cearense continuar servindo de plateia para debates que buscam apenas o voto e não a solução, episódios como o de Acopiara continuarão se repetindo - mudando apenas o município e os personagens do próximo vídeo de campanha. O povo cearense está cansado do barulho que não resolve nada, apenas causa mais medo e terror a quem já vive aterrorizado, enquanto eles desfilam em carros blindados rodeados de seguranças e muitas vezes sob a autorização e proteção dos grandes lideres que controlam o tamanho e o grau das ações de todos.






