A
Dialética da Partilha
A história, essa velha senhora ranzinza
que não perdoa os desatentos, e nos impõe hoje um paradoxo de dar nó em juízo:
de um lado, o altar adornado pelo ouro da exploração; do outro, a mesa vazia de
quem produz a riqueza. Olhando para os comportamentos de muitos líderes
religiosos atualmente, sinto o cheiro do incenso misturado ao suor do operário
e, francamente, a conta não fecha. O divórcio entre o que se prega nos púlpitos
e presbitérios e o que se vive na calçada não é apenas um deslize
ético; é uma traição metafísica.
A
Gênese Coletiva: Entre o Evangelho e o Manifesto
Sejamos honestos, e nos dispamos do medo
que as patrulhas ideológicas tentam nos incutir. Quando abrimos os Atos dos
Apóstolos (4:32), o que lemos não é um manual de gestão de fundos
imobiliários, mas o relato de uma radicalidade que faria muito "revolucionário"
de apartamento tremer. "Tudo lhes era comum". Ora, se isso não
é a raiz de um pensamento comunitário mais profundo, eu já não sei mais ler o
mundo. A convergência aqui é solar. O desapego cristão e a máxima comunista - "de
cada qual segundo sua capacidade, a cada qual segundo suas necessidades"
- bebem da mesma fonte: a percepção de que a propriedade privada é,
muitas vezes, o muro que separa o homem da sua própria humanidade.
O
Estelionato da Fé: O Templo como Balcão de Negócios
O que vemos atualmente - e há muito
tempo - é uma inversão de valores que beira o escárnio. Instituições que
deveriam ser portos de solidariedade transformaram-se em vanguarda do capital,
capitaneadas por pseudolíderes religiosos, que transformaram a fé em mercadoria
e os dogmas em cláusulas contratuais. E com essa prática nefasta que abusa da
fé e da boa-fé dos fies e congregados vieram: a Expansão Patrimonial com
Templos faraônicos erguidos com o suor alheio, enquanto o entorno padece na
miséria. o Fetichismo do Dinheiro que faz de tudo para manter e
ampliar a teologia da prosperidade que nada mais é do que o capitalismo de
cassino batizado com água benta, venda de indulgências e até camarote no
Paraíso e a Manutenção do Status Quo: estes pseudolíderes religiosos usam
o nome de Cristo para validar a exclusão, transformando a libertação em
cabresto no qual de um lado está o fiel ou congregado com sua carência, seja
ela financeira, psicológica ou física, e do outro encontra-se os pseudolíderes
religiosos que exploram essa condição para engordar cada vez mais suas contas
bancárias. É o que podemos chamar de fé de cofre,
onde o psudolíder religioso, encastelado em sua influência financeira, olha
para o Cristo e não o reconhece, pois o Cristo era aquele que não tinha onde
reclinar a cabeça.
A
Verdadeira Liturgia: O Pão Partido na Mesa do Pobre
Tenho certeza de que a provocação
central deste texto nos atinge em cheio: afinal, quem é o portador da verdade?
O líder religioso que gerencia milhões de reais e quer viver da caridade
promovida pela fé alheia, ou o trabalhador que, com um salário de fome, ainda
encontra espaço para a solidariedade? O trabalhador, esse herói anônimo do
cotidiano, pratica o comunismo sem ter lido Marx e vive o cristianismo sem
decorar o catecismo. Divide o pão por uma ética da sobrevivência. Nele,
a partilha não é uma estratégia de marketing institucional, é uma imposição da
vida. Ele entende, no músculo, no sangue e no osso, que a necessidade do
vizinho é a sua própria necessidade.
O
Encontro na Justiça Social
Não há como conciliar o acúmulo desenfreado de certas
lideranças com a radicalidade do Evangelho. Se o Cristianismo é amor e o
Comunismo é a busca pelo fim da exploração, ambos se encontram na mesa da
partilha. A espiritualidade autêntica, aquela que faz o coração arder, não
habita nos cofres trancados a sete chaves, mas nas mãos estendidas. No fim das
contas, a justiça social é a única oração que Deus realmente escuta sem
precisar de intermediários com anéis de ouro. Se as igrejas e templos não servem
para libertar o homem da miséria, elas só servem para decorar as paisagens da
opressão levada a cabo por seus líderes que com toda a heresia que a hipocrisia
permite, se autoproclamam legítimos representantes de Deus entre os homens.