Por: Eudasio Menezes
Ao
folearmos as páginas de O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, nosso primeiro
impulso do leitor contemporâneo é tratar a obra como um artefato histórico, um
manual para tiranos de uma era de espadas e castelos. Contudo, logo de início ao
mergulharmos nas entrelinhas de sua dedicatória a Lourenço de Médici notamos em
suas observações sobre a estabilidade dos estados, somos confrontados com uma
verdade incômoda: Maquiavel nunca foi tão atual. Sua obra inicia com uma lição
de humildade estratégica. Notamos isso quando o autor afirma que para
conhecer bem a natureza do povo é preciso ser príncipe e para conhecer bem a
natureza do príncipe é preciso pertencer ao povo. Aqui, ele não está apenas
bajulando seu destinatário. Ele está apresentando um currículo implícito.
Neste
ponto o autor nos brinda com a lição de que o poder cria pontos cegos. E
estando o governante, no topo da montanha, vê as massas, mas não enxerga a si
mesmo, nem a base que lhe sustenta. Claro que esta é a visão de quem olha
debaixo, ou seja, o olhar do povo, - e é exatamente neste ponto que Maquiavel
se coloca para Lourenço como um especialista que vem do povo - estando, portanto,
capacitado e para traduzir para o Príncipe a real mecânica do poder. Outro
ponto provocativo do debate maquiavélico reside na ideia de que a continuidade
do domínio - permanência no poder - apaga a memória da mudança. Para o
pensador florentino, uma mudança sempre abre caminho para outras. Por isso, a
estabilidade, ou seja, deixar ficar como está é a maior fortaleza de um
governante.
Em
nossa democracia moderna, essa lógica opera de forma silenciosa, mas
implacável. Embora vivamos sob a égide do voto popular, a realidade nos mostra
que a alternância de poder muitas vezes não passa de uma utopia e que vemos na prática
em pleno século XXI, é a aplicação da lógica dos principados hereditários dos
tempos de Maquiavel: são famílias, grupos e oligarquias que utilizam o poder político,
econômico e o controle da máquina pública, para impedir que a engrenagem da
mudança comece a girar. Podemos e devemos acreditar claro, que a
educação política pelo menos em tese, seria o antídoto para essa estagnação. Pois
um povo consciente busca ou deveria buscar a renovação. No entanto, uma análise
realista nos obriga a encarar o desequilíbrio de forças.
O
poder econômico não apenas financia campanhas; ele molda narrativas, define o
que é discutido e, por vezes - não raramente - anestesia o desejo de mudança
através da dependência ou da propaganda. Neste contexto, onde Platão e
Aristóteles vislumbravam a política como a busca pela virtude e pelo bem comum,
a prática moderna parece ter dado razão a Maquiavel, isto é, a política
tornou-se a técnica de manutenção de elites.
Deste modo, pelo menos, a curto e médio prazo, o horizonte da alternância real parece distante, haja vista a eficiência do sistema em se auto preservar, transformando o desejo de renovação em uma peça de ficção eleitoral. - Ou como disse o Capitão Nascimento interpretado por Wagner Moura, na obra de ficção realista Tropa de Elite 2 em 2010, na sua icônica frase: “...O sistema é foda, parceiro. Entra político, sai político, continua tudo na mesma, nada muda. Ainda vai levar muito tempo para consertar essa porra, e muita gente inocente vai morrer no meio do caminho...".
Por isso caros leitores, reconhecer essa verdade efetiva das coisas, como propunha Maquiavel, não é necessariamente um ato de pessimismo, mas de lucidez. Somente ao entender que a democracia muitas vezes opera sob a lógica fria do poder econômico é que podemos, talvez, começar a pensar em formas reais de romper esse ciclo. Por enquanto, seguimos sob a égide dos príncipes modernos, onde mudar o nome de quem governa raramente significa mudar a lógica de quem manda, de quem controla o Poder.






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