Por
Eudasio Menezes
Sempre
que o debate econômico nacional se volta para as contas públicas, um fantasma
conveniente é ressuscitado com precisão cirúrgica: o rombo da Previdência.
Sob a narrativa oficial de um déficit insustentável, impõe-se à sociedade a
lógica de que o trabalhador brasileiro se aposenta cedo demais ou recebe além
do que o sistema comporta. No entanto, uma análise atenta sobre a
evolução da Dívida Ativa da União revela uma realidade incômoda que as
propagandas governamentais insistem em omitir: a crise do sistema
previdenciário não é uma crise de despesas exageradas com o povo, mas sim uma
crise de arrecadação sabotada por grandes empresários caloteiros e pelo dreno
da corrupção.
Para
compreender a gravidade e a raiz do problema, basta confrontar o presente com o
passado. Em 2003, a divulgação da lista dos maiores devedores do Instituto
Nacional do Seguro Social - INSS - expunha um cenário alarmante: a extinta Companhia
Aérea Transbrasil liderava o topo do calote com R$ 408,9
milhões devidos, seguida de perto por outras gigantes da aviação como Varig
e VASP, além de prefeituras e empreiteiras. O estoque de inadimplência
daquela época já somava o montante de R$ 153 bilhões.
Duas
décadas depois, a situação não apenas persistiu, mas escalou para a casa dos
bilhões de reais por empresa. De acordo com dados consolidados pela
Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional - PGFN -, os cem maiores devedores
da Previdência sozinhos acumulam mais de R$ 50 bilhões em calotes
fiscais. No topo desse ranking da impunidade, a massa falida da Varig
desponta com uma dívida astronômica que atinge a marca dos R$ 4 bilhões.
A extinta Vasp segue o mesmo rastro de destruição fiscal, com um passivo
previdenciário superior a R$ 1,7 bilhão.
Engana-se,
porém, quem pensa que o calote se limita a empresas falidas do passado.
Gigantes do mercado atual e grandes conglomerados privados também figuram no
topo das autuações e execuções da União. A gigante do setor de proteína animal JBS
S/A, - do empresário amigo do Poder Joesley Batista - dona de marcas
globais, acumulou débitos superiores a R$ 2 bilhões com a Previdência.
O setor educacional privado também tem sua cota de endividamento e calote, a
exemplo da Associação Educacional Luterana do Brasil - Ulbra com um
rombo registrado de R$ 1,8 bilhão nas tabelas da dívida ativa. Bancos
privados de grande porte, como o Bradesco e Itaú dentre outros,
também já frequentaram as listas de fiscalização por reter ou atrasar repasses
ao INSS na casa de centenas de milhões de reais.
Enquanto
o trabalhador comum, cujo imposto e contribuição previdenciária são retidos
diretamente na fonte, de forma implacável a cada fim de mês, assiste a um
espetáculo de privilégios, as grandes corporações acumulam dívidas bilionárias,
capitalizam-se com o dinheiro que deveria garantir a sustentabilidade das
aposentadorias e, frequentemente, são agraciadas com generosos programas de
parcelamento e perdão de multas, os conhecidos Refis que contribui de
forma indescritível para transformar esses privilégios em calote previdenciário,
numa estratégia imoral de fluxo de caixa e concorrência desleal, contra os
trabalhadores brasileiros.

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