Por
Eudasio Menezes
Essa
mudança de status altera completamente o jogo para qualquer agente público
brasileiro que mantenha - ou tenha mantido - vínculos com essas organizações. A
partir de agora para os políticos corruptos e financiadores do crime
organizado, a grande virada dessa medida está na reclassificação jurídica
dos próprios agentes públicos envolvidos. Ao cruzar da corrupção tradicional
para se aliar a entidades designadas como Organizações Terroristas
Estrangeiras - FTO, esses políticos deixam de ser encarados pelo direito
internacional apenas como criminosos do colarinho branco e passam a ser
classificados formalmente como membros, coautores ou financiadores de
organizações terroristas. E sob a doutrina de segurança nacional dos
Estados Unidos, quem concede apoio político, facilita a lavagem de dinheiro
público ou protege a logística dessas facções comete o crime de fornecimento
de suporte material ao terrorismo. Na prática, para a comunidade
internacional, qualquer político que viabilizar negócios do PCC ou do CV em
solo brasileiro adquire o mesmo status legal de um financiador de células terroristas
e extremistas globais, em outras palavras, será classificado como terrorista.
Claro
que essa manobra de Trump, nada tem a ver com a segurança interna do povo brasileiro,
afinal, ele não consegue sequer coibir o narcotráfico em seu próprio país. Por
trás da justificativa de segurança pública e combate ao crime transnacional, conforme
muitos analistas de geopolítica internacional enxergam, está uma engrenagem
muito mais profunda e pragmática na estratégia do governo do Estados Unidos. O
movimento de rotular grandes facções brasileiras como entidades terroristas
cria o pretexto de ameaça regional, servindo de blindagem ideológica e
jurídica para avançar sobre o verdadeiro alvo da Casa Branca: as imensas e
estratégicas reservas de terras raras, lítio e nióbio do Brasil.
Críticos
e historiadores apontam que essa abordagem repete um modus operandi
clássico da política externa americana: o uso de narrativas de segurança
nacional para justificar a ingerência, desestabilização ou até a destituição de
governos soberanos, com o real objetivo de coordenar a apropriação e a
exploração de riquezas energéticas e minerais -exatamente como ocorreu
historicamente com o petróleo no Iraque e as investidas asfixiantes contra o Iraque,
Venezuela e Cuba, dentre outros. E mais, no novo tabuleiro da guerra
tecnológica dos Estados Unidos contra a China, controlar o refino e o
suprimento dos minerais críticos do subsolo brasileiro - segunda maior reserva
do planeta - tornou-se uma obsessão para Washington e, portanto, criminalizar o
ambiente político local sob o rótulo do terrorismo é a ferramenta perfeita para
forçar concessões e relativizar a soberania nacional.
Antes
desta classificação, o envolvimento de políticos com o crime organizado era
tratado sob a ótica da legislação penal brasileira e de acordos tradicionais de
cooperação internacional para crimes financeiros. A partir de agora o
tratamento a ser dado pelo governo americano passa a seguir o rigor do combate
ao terrorismo internacional, acionando ferramentas do Tesouro e do Departamento
de Justiça dos Estados Unidos. Na prática, esses mecanismos passam a ameaçar diretamente
o patrimônio de políticos envolvidos sob três pilares automáticos: O Escritório
de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), braço do Tesouro americano, passa a
rastrear não apenas as contas das lideranças das facções, mas de qualquer
indivíduo que preste o chamado suporte material a elas. Esse conceito
inclui facilitação política, lavagem de dinheiro em contratos públicos (como os
esquemas de licitação fraudada em prefeituras), ocultação de bens ou proteção
logística.
Qualquer
político listado ou investigado por associação a essas facções terá seus ativos
financeiros congelados de forma sumária caso passem pelo sistema bancário
americano. Como a vasta maioria das transações internacionais em dólares é
compensada em bancos nos EUA, a asfixia financeira atinge o suspeito
globalmente, impedindo o uso de cartões, contas no exterior e remessas para
paraísos fiscais. Propriedades de luxo, contas bancárias na Flórida,
investimentos e empresas de fachada em solo americano tornam-se alvos diretos
de confisco pelo governo dos EUA. A legislação de segurança nacional americana
permite a expropriação desses bens sem a necessidade de esperar o trânsito em
julgado (a conclusão definitiva) dos processos criminais na Justiça brasileira.
A
medida encontra eco em relatórios de inteligência que mapeiam o avanço
territorial e político de ambas as facções nas principais regiões do país:
|
Estado |
Dinâmica
de Infiltração Apontada por PF e GAECO |
|
São
Paulo |
Uso
de empresas de serviços (limpeza, vigilância e transportes) para vencer
licitações milionárias em prefeituras e câmaras municipais, operando a
lavagem de dinheiro do PCC. |
|
Rio
de Janeiro |
Consolidação
do "voto de cabresto" territorial pelo CV, que dita quem pode fazer
campanha nas comunidades e exige nomeações em secretarias (como Saúde e
Assistência Social) em troca de acesso. |
|
Ceará |
Disputas
violentas por rotas de escoamento transnacional de drogas que geram pressões
e tentativas de cooptação de estruturas de segurança e lideranças regionais. |
|
Minas
Gerais |
Expansão
logística e financeira de ramificações que utilizam postos de combustíveis e
comércios locais para a ocultação de capitais ligados ao tráfico. |
A
resistência histórica do governo brasileiro em classificar essas facções como terroristas
- mantendo o entendimento técnico-jurídico de que são organizações criminosas
motivadas pelo lucro, e não pela ideologia - perde o efeito prático no
exterior. A soberania da lei americana dita as regras para qualquer patrimônio
que tente cruzar as fronteiras ou utilizar o sistema financeiro ocidental. Para
os políticos que outrora acreditavam que a morosidade jurídica ou a influência
local os protegeriam, o relógio começou a correr mais rápido. A partir de
agora, o envolvimento com o PCC ou com o CV não é apenas uma infração ao Código
Penal brasileiro: tornou-se uma engrenagem que expõe o país a disputas
macroeconômicas e geopolíticas profundas com a maior potência econômica do
planeta, trazendo consequências patrimoniais imediatas e irreversíveis.
Se
você deseja entender mais sobre o real motivo que move essa decisão de Donald
Trump poderá se aprofundar na questão do peso estratégico que as reservas
minerais brasileiras têm no cenário de disputa de potências mundiais, conferindo
a análise detalhada no vídeo A disputa
pelas terras raras no radar de Trump. Esta cobertura jornalística explica
como as maiores reservas do país tornaram-se o ponto central das negociações
internacionais e das pressões de Washington em meio à guerra comercial e
tecnológica global.
