domingo, 24 de maio de 2026

A ILUSÃO DO MARKETING VERSUS A REALIDADE DAS RUAS: O XADREZ ELEITORAL NO CEARÁ

Por Eudasio Menezes

No tabuleiro da política eleitoral, os analistas costumam se debruçar sobre uma equação clássica para prever o sucesso de uma candidatura majoritária: a avaliação da gestão atual, o peso do apoio dos prefeitos - vistos como os grandes cabos eleitorais devido ao contato direto com a base -, o volume de recursos partidários e a escolha estratégica dos vices. É sob essa métrica tradicional que os grupo governista no Ceará tenta recalcular sua rota. Diante de pesquisas de intenção de voto que acendem o sinal de alerta, a base aliada se vê no dilema entre consolidar a tentativa de reeleição do governador Elmano de Freitas ou, eventualmente, caso não consigam reverter essa tendência até as convenções, recorrer ao capital político do ministro Camilo Santana para manter a hegemonia do projeto.

Do outro lado do espectro, o manual da oposição é aplicado à risca, unindo personagens que hoje convergem no mesmo campo de enfrentamento. Embora venham de trajetórias distintas, tanto o ex-ministro do governo Lula, Ciro Gomes, quanto o senador Eduardo Girão, encontram-se atualmente alinhados com a ala bolsonarista e a extrema direita: Ciro conta com o apoio de Flávio Bolsonaro, enquanto Girão caminha respaldado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. O papel de seus marqueteiros é evidente: sintonizar essas forças para relativizar os acertos da gestão estadual e amplificar as feridas crônicas que o governo não conseguiu estancar, elegendo a violência, a falta de segurança pública e as deficiências na saúde como os principais eixos de ataque.

No entanto, há uma variável que o pragmatismo dos escritórios de marketing frequentemente subestima: o limite da narrativa diante da vida real. Em tempos de redes sociais e amplo acesso à informação, o eleitorado dispõe de ferramentas para confrontar a propaganda oficial em tempo real. As pesquisas qualitativas são excelentes para captar o sentimento do momento e moldar discursos sob medida, entregando ao cidadão exatamente o que ele gostaria de ouvir. Mas o voto consciente não se sustenta apenas na métrica de um roteiro bem escrito. Para o candidato da base, não basta que o comercial de TV apresente um estado seguro e próspero; o eleitor precisa sentir essa segurança ao sair de casa para trabalhar. Da mesma forma, para a oposição, não basta apontar o caos e prometer o mundo ideal baseado nas frustrações da população. O cidadão de hoje, escaldado por promessas vazias, exige veracidade. Ele precisa acreditar que o oposicionista não está apenas surfando na onda do descontentamento, mas que possui viabilidade, preparo e real intenção de aplicar soluções concretas.

O grande gargalo das campanhas modernas é a desconexão entre o país do marketing e o país real. Quando o discurso construído artificialmente pelas agências colide com a experiência diária do cidadão no posto de saúde ou nas ruas da periferia, a narrativa desmorona. O futuro político do Ceará não será decidido apenas pelo número de prefeitos alinhados ou pelo volume de inserções na TV. O fator determinante será a capacidade do eleitor de enxergar verdade nas propostas. No fim das contas, a política de verdade não se faz apenas com o que o eleitor deseja sonhar, mas com aquilo que ele consegue, de fato, sentir, viver e confiar.

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