Por Eudasio Menezes
No
tabuleiro da política eleitoral, os analistas costumam se debruçar sobre uma
equação clássica para prever o sucesso de uma candidatura majoritária: a
avaliação da gestão atual, o peso do apoio dos prefeitos - vistos como os
grandes cabos eleitorais devido ao contato direto com a base -, o volume de
recursos partidários e a escolha estratégica dos vices. É sob essa métrica
tradicional que os grupo governista no Ceará tenta recalcular sua rota. Diante
de pesquisas de intenção de voto que acendem o sinal de alerta, a base aliada
se vê no dilema entre consolidar a tentativa de reeleição do governador Elmano
de Freitas ou, eventualmente, caso não consigam reverter essa tendência até as
convenções, recorrer ao capital político do ministro Camilo Santana para manter
a hegemonia do projeto.
Do
outro lado do espectro, o manual da oposição é aplicado à risca, unindo
personagens que hoje convergem no mesmo campo de enfrentamento. Embora venham
de trajetórias distintas, tanto o ex-ministro do governo Lula, Ciro Gomes,
quanto o senador Eduardo Girão, encontram-se atualmente alinhados com a ala
bolsonarista e a extrema direita: Ciro conta com o apoio de Flávio Bolsonaro,
enquanto Girão caminha respaldado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. O
papel de seus marqueteiros é evidente: sintonizar essas forças para relativizar
os acertos da gestão estadual e amplificar as feridas crônicas que o governo
não conseguiu estancar, elegendo a violência, a falta de segurança pública e as
deficiências na saúde como os principais eixos de ataque.
No
entanto, há uma variável que o pragmatismo dos escritórios de marketing
frequentemente subestima: o limite da narrativa diante da vida real. Em
tempos de redes sociais e amplo acesso à informação, o eleitorado dispõe de
ferramentas para confrontar a propaganda oficial em tempo real. As pesquisas
qualitativas são excelentes para captar o sentimento do momento e moldar
discursos sob medida, entregando ao cidadão exatamente o que ele gostaria de
ouvir. Mas o voto consciente não se sustenta apenas na métrica de um roteiro
bem escrito. Para o candidato da base, não basta que o comercial de TV
apresente um estado seguro e próspero; o eleitor precisa sentir essa segurança
ao sair de casa para trabalhar. Da mesma forma, para a oposição, não basta
apontar o caos e prometer o mundo ideal baseado nas frustrações da população. O
cidadão de hoje, escaldado por promessas vazias, exige veracidade. Ele precisa
acreditar que o oposicionista não está apenas surfando na onda do
descontentamento, mas que possui viabilidade, preparo e real intenção de
aplicar soluções concretas.
O
grande gargalo das campanhas modernas é a desconexão entre o país do
marketing e o país real. Quando o discurso construído
artificialmente pelas agências colide com a experiência diária do cidadão no
posto de saúde ou nas ruas da periferia, a narrativa desmorona. O futuro
político do Ceará não será decidido apenas pelo número de prefeitos alinhados
ou pelo volume de inserções na TV. O fator determinante será a capacidade do
eleitor de enxergar verdade nas propostas. No fim das contas, a política de
verdade não se faz apenas com o que o eleitor deseja sonhar, mas com aquilo que
ele consegue, de fato, sentir, viver e confiar.

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